Latest Entries »

Como?

O que é que eu fui fazer? (…)

O que eu faço para não mais lembrar?

Como calar o som da chuva, a lágrima do poeta,

o amor que sinto por ti?!

Poderia eu fazer retornar as lavas flamejantes

de um vulcão recém despertado?

Poderia eu conter a fúria de um tsunami?

Poderia minhas palavras ficar longe das tuas?

Quisera eu, saber adestrar o mar,

conter a tempestade,

correr por sobre o sol, andar por entre as nuvens.

Tudo em vão!

Como isso poderia ser feito de outra forma

senão desta forma doida e desenfreada?

Como chamar os anjos para perto de mim?

Como parar o tempo Kronos?

Nada eu te dei.

Nada tu me deste.

tudo um ao outro entregamos.

Como poderíamos conter a fúria do oceano?

© Por Lilly Araújo-Direitos Autorais Reservados

Hoje, dia 11/01/11.Primeira semana oficialmente útil do ano, já que a primeira foi toda preguiçosa, cheia de primeiras segunda, terças, quartas… Então , meu primeiro Post!

Se não fosse uma dor de garganta violenta que me acometeu ontem no final da tarde, hoje continuaria sendo mais um dos dias maravilhosos de 2011. Mas, incidentes à parte, gostaria de destacar o curioso fato como esse ano veio trazendo um espírito de boas esperanças a toda a gente. Ao redor de mim, pessoas confiantes, e esperançosas a todo instante, um fenômeno que julguei estar acontecendo particularmente na minha vida, constatei, no entanto que se trata de uma reação em cadeia.

O que se vê por aí são pessoas sorridentes, e aguardando e de melhor que a vida possa dar para esse ano. E isso é muito bom: – Pensamentos positivos; ou Fé como alguns prefiram dizer; ou ainda apenas Esperança.

O que importa é que o ano começou, e começou bem, se você, por acaso for um dos que não se encaixou nesse espírito, para um pouquinho e pense em projetos que você queira ver realizado no decorrer desse ano. E creiam, eles são todos possíveis!

Um abraço de boas energias a todos que me seguem nesse espaço, e muito obrigada.

Esse é meu voto no primeiro post desse ano maravilhoso de 2011!

 

Foto: Lilly Araujo.

Os Estatutos do Homem

Thiago de Mello

(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony

 

Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.

que agora vale a vida,

e que de mãos dadas,

trabalharemos todos pela vida verdadeira.

 

Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,

inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

 

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,

haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.

 

Artigo IV.
Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.

 

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem

como um menino confia em outro menino.

 

Artigo V.
Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras.

O homem se sentará à mesa

com seu olhar limpo

porque a verdade passará a ser servida

antes da sobremesa.

 

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,

a prática sonhada pelo profeta Isaías,

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos

e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

 

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido

o reinado permanente da justiça e da claridade,

e a alegria será uma bandeira generosa

para sempre desfraldada na alma do povo.

 

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor

sempre foi e será sempre

não poder dar-se amor a quem se ama

e saber que é a água

que dá à planta o milagre da flor.

 

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia

tenha no homem o sinal de seu suor.

Mas que sobretudo tenha sempre

o quente sabor da ternura.

 

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,

a qualquer hora da vida,

o uso do traje branco.

 

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,

que o homem é um animal que ama

e que por isso é belo.

muito mais belo que a estrela da manhã.

 

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.

tudo será permitido,

inclusive brincar com os rinocerontes

e caminhar pelas tardes

com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:

amar sem amor.

 

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro

não poderá nunca mais comprar

o sol das manhãs vindouras.

Expulso do grande baú do medo,

o dinheiro se transformará em uma espada fraternal

para defender o direito de cantar

e a festa do dia que chegou.

 

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.

a qual será suprimida dos dicionários

e do pântano enganoso das bocas.

A partir deste instante

a liberdade será algo vivo e transparente

como um fogo ou um rio,

e a sua morada será sempre

o coração do homem.

 

Santiago do Chile, abril de 1964

Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar 1965.

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198

Respondo à tua carta: (a nossa última carta)
– bem sei que deste amor tu já te sentes farta
e queres acabar. Vou fazer-te o desejo.
Tu tens toda a razão, e afinal, hoje, vejo
o erro que eu e tu na vida cometemos…
Também acho melhor que a história terminemos
já que enfim encontraste um novo amor, sincero,
diferente do meu. Faço votos e espero
que sejas bem feliz… Farei por esquecer
este lindo romance, e por não mais rever
as noites que nos dois, sob a sombra dos ramos
daquela árvore velha, a imaginar passamos
um futuro irreal… Tentarei apagar
da lembrança – o jardim, a casa, o nosso lar,
aquele doce lar do teu sonho de criança
e que era para mim a mais linda esperança…

Tudo isso – afirmas tu – foi apenas um sonho,
uma época feliz, um tempo mais risonho
que afinal já passou… E escreves, terminando,
– que procure da mente meu sonho ir apagando
porque não voltarás jamais, e sendo assim
é melhor esquecer… é melhor para mim…
Que queres que eu responda? – Hei de tudo fazer
para arrancar do âmago do ser
este amor que nasceu sem que eu sequer notasse
fazendo-me sofrer… Se este amor te contasse,
as dores que em meu peito o coração abriga
num sofrimento atroz; verias, minha amiga
que é fácil esquecer, quando apenas julgamos
ter amado; porém, quando em verdade amamos,
só depois de amargar infindáveis tormentos,
conseguimos enfim, alguns poucos momentos
de olvido e solidão. Meu caso é diferente
do teu, pois que te amei, e amei sinceramente
acreditando em ti. Pensei que era feliz
muita vez à razão acreditar não quis,
e hoje sofro pagando a minha ingenuidade.
Tu, não. Pensaste amar; julgaste ser verdade
o que agora não é mais que um sonho desfeito…
Ainda há, como bem vês, acesa no meu peito
a brasa deste amor, e em minha alma ainda existe
um vago relembrar, que me faz triste
sentindo o que passou. Contigo, nem sequer
há de haver, a menor lembrança – és bem mulher
no teu esquecimento… Esqueceste depressa…
– Confessa!… Tu jamais tiveste amor, confessa!
Só assim compreenderei a tua decisão
e o novo amor que achaste… Eu sofro, e com razão,
quando penso que um outro há de beijar-te a boca,
esta flor rubra e fresca onde a minha lama louca,
se fundiu à tua alma e fremiu de desejo.

A tudo esquecerei, talvez – mas este beijo
não tentes me pedir -, de há muito está gravado
como o ponto final da história do passado…
…………………………………………………………………….

E é só. Nada mais tenho a te dizer. Na vida,
não te quero encontrar jamais arrependida
porque seria em vão… Meu amor é dos tais
que morto como foi, não voltará jamais…
………………………………………………………………….

Adeus… (Podes rasgar todos os versos meus…)
perdoa-me se guardo o nosso beijo…

Adeus!…


(Poema de J.G. de  Araujo Jorge
in  ” Meu Céu Interior “- 1934)

Sem Pressa!

Este slideshow necessita de JavaScript.

Ah, eu estou me sentindo meio descrente da vida, sabe? Com meu corpo sedentário sobre a cama por horas a fio, e já quase atrofiando a alma.

Estou com vontade de fugir de tudo que é urbano. Esquecer os fios conectores, o Bluetooth, Ipods, ou qualquer coisa que tenha teclas, ou telas, ou façam qualquer som frenético. Vontade de deixar esse mundo que se tornou tão aflito, e que tem sempre muita pressa. Onde tudo é manejado por um apertar de botões. Meus ouvidos estão feridos!

Estou com sede de terra molhada, de sentir o aroma de grama amassada, de formiga esmagada, enquanto o único som que se possa ouvir seja dos pássaros lutando no ar, numa dança de acasalamento, paz e alegria; que seja o som das cortadeiras picotando suas folhas e marchando por entre os trieiros, como se fossem soldadinhos; que seja o som dos estalidos dos gravetos que se desprendem das árvores ou do bico das passarinhas que ajeitam maternalmente o ninho dos seus filhotinhos. Quero ouvir o som das águas batendo contra as pedras e fazendo esculturas infinitas.

Quero adentrar-me no rio e me deixar levar pelo seu leito tortuoso, e sentir a água me abraçar, e a brisa me acariciar. E ir percorrendo o seu caminho sem pressa. E ter tempo de observar o céu azul claro, e uma diversidade de aves cortando o seu espaço, todas leves e belas, alheias ao meu observar. E sentir o sol bater intermitente no meu rosto, entrecortando os ramos das matas ciliares que circundam o rio onde meu corpo bóia, como uma pluma, feliz!

E assim continuar percorrendo juntos às águas, caminhos que eu nunca conheci, até que o dia seja noite. E sentir agora os dedos enrugados, e o bater das minhas mandíbulas pelo frio do rio, e isso também me deixar feliz.

E me refugiar depois em uma das margens. Jogar meu corpo na areia e ficar inerte. Observar cuidadosamente que o céu trocou sua roupa anil por saias alaranjadas, que pouco a pouco vão se tornando azul turquesa, e salpicos como lantejoulas vão lhe sendo cosidas, em forma de estrelas.

E no frio acolhedor da areia me deixar ficar um pouco mais, e notar que os sons também se transformaram. Agora o bater das asas dos pequenos passarinhos, silenciou. Dormem aconchegantes em seus galhos e ninhos. E as cortadeiras também foram descansar. Ainda estalam os pequenos gravetos que se desprendem, e o som das águas escultoras também continua o mesmo. Lentamente os anuros começam a reger a orquestra do anoitecer: sapos; pererecas e rãs, “gritam” e saltam desenfreadamente, como se quisessem alcançar os pirilampos piscantes pregados à grande teia que é o céu, e assim, comer uma a uma, cada estrela.

Estou com sede dessa paz que há muito não sinto. Estou com medo de jamais torná-la a sentir. Presa na cadeia Cidade-Grande, onde os sons são sempre de botões, buzinas, palavrões e, acima de tudo, de pressa. Muita pressa.

© Por Lilly Araújo-Direitos Autorais Reservados.