O casamento de Síssi.

Maria Cecília ou Síssi, como gostava de ser chamada, acordava cada vez mais cedo e dormia cada vez mais tarde nas últimas semanas, os preparativos de seu casamento estavam absorvendo todas as suas energias, mas isso não a deixava cabisbaixa, pelo contrário, Síssi parecia resplandecer cada dia mais, e ficar ainda mais eufórica com o chegar da data tão esperada.

O clima estava muito propício para que tudo fosse bem à alma de Síssi, afinal de contas o Outono já havia chegado: Sua estação favorita. O amor estava no ar para ela nessa estação, o sussurrar dos ventos por entre as árvores que ficavam alaranjadas lhe deixava totalmente radiante. Adorava deitar-se nas folhas ao chão, que formavam tapetes alaranjados, desde sua mais tenra infância. Não fora por acaso que escolhera essa estação para se casar. Não, tudo fora calculado milimetricamente por ela desde que seu amado noivo fizera o pedido de sua mão há um ano.

O mês escolhido foi Maio, que era o “Mês das Noivas”, e era ainda o mês em que ela e Paulo se conheceram, e também sua estação preferida. A lua de mel se daria em Campos do Jordão, pois em suas pesquisas na net descobrira que com a quantidade de árvores na região tudo seria um paraíso só. Um paraíso alaranjado.

– Não é mesmo muita sorte meu fofinho? – Repetia Sissi a seu noivo.

Ela era tida como uma garota de muita sorte pelas amigas, dentre as mais íntimas: Gina e Amanda, ou Nananda, como balbuciava a irmãzinha, e acabou pegando. Síssi achava que não era só sorte, mas sentia no fundo que “Alguém lá em cima” gostava muito dela. Não ficava citando o nome de Deus à toa, achava falta de respeito, também não encrencava com ninguém por causa de questões religiosas ou políticas, tão pouco futebolísticas. Apenas acreditava n’Ele e se sentia amada e cuidada.

Era feliz! Ninguém podia negar.

[…]

Faltando uma semana para o Dia, Síssi exagerou em sua agenda corrida e acabou apanhando um resfriado.

– Que azar!- disse Nananda.

– Que nada, não é azar, é só gripe. – Retrucou Síssi, com seu bom humor usual.

– Só gripe, mas às vésperas do casório, enlouqueceria qualquer noiva. – Completou Gina.

-Mas não minha Síssi. – Interveio o noivo de olhar apaixonado.

[…]

A partir daquele dia, um conjunto de fatos estranhos começou a ocorrer em torno de Sissi. Parecia que de repente a boa sorte da garota havia virado.

Quando foi fazer a prova do vestido, a costureira estava com um humor do cão, havia brigado com o marido. Disse coisas terríveis sobre casamento, desfiou um rosário de lamentações sobre as amarguras de se viver a dois, e não bastasse o fato dessas palavras já ser o suficientemente ruim para uma candidata ao cargo de casada, a distração da costureira lhe rendeu diversas alfinetadas. Só Síssi mesmo para continuar sorrindo, e ainda oferecer gentis palavras de conforto à pobre senhora, outra noiva teria exigido trocar de costureira, principalmente em se tratando das costumeirasnoivas à beira de um ataque de pânico”, que todas parecem ser quando a data se aproxima. Mas essa não era uma descrição correspondente a dócil Síssi.

No outro dia, chamou as duas amigas para irem ao salão, cuidar dos últimos preparativos, mas as duas deram suas desculpas e se esquivaram do compromisso. Síssi achou estranho, mas não reclamou, mal sabia ela o quanto iria precisar de um ombro amigo naquele dia.

Quando lá chegou teve a pior notícia que poderia ouvir, um encanamento havia estourado e comprometido toda a estrutura do espaço que ela escolhera para realizar a cerimônia. Síssi empalideceu, em segundos, todas as implicações que aquela notícia trouxe passaram pela sua cabeça. Não estava mais sorrindo. Saiu meio atordoada e apressada para tentar encontrar outro local.

Ligou para Paulo e contou-lhe a novidade com a voz embargada. O noivo disse para ela ir ao seu encontro. Síssi enxugou as lágrimas e dirigiu até o escritório onde ele advogava, mas não bastasse tudo, o pneu do carro furou, e um dia antes ela emprestara o estepe a seu irmão mais novo, que garantiu que era só o tempo de ir à borracharia e já o traria de volta. Como sempre, não foi o que ele fez. E na correria ela se esquecera disto completamente.

Pobre Síssi, terminou a tarde guinchada. Os olhos inchados.

[…]

Faltando dois dias, fatos menos graves aconteceram ainda, uma madrinha que não iria mais poder vir, somado ao fato que sua filha era uma das damas.

O pior de tudo mesmo foi quando foi pegar o vestido. Ela havia pedido que estivesse numa embalagem lacrada de modo que seu noivo não pudesse ver, para não estragar a surpresa, pois não era supersticiosa quanto a isso, mas não abria mão de ver seu noivo no altar ficando embasbacado ao lhe ver no modelo escolhido com toda cautela.

Dessa vez suas amigas tinham ido juntas, para compensar o outro dia, que com certeza deveriam ter estado lá.

Síssi subiu elétrica pela escadaria. As amigas admiravam cada vez mais seu otimismo, principalmente depois dos últimos e lamentáveis fatos. Mas, mais uma vez, a sorte lhe abandonara. A tal costureira problemática havia abandonado o emprego pouco depois da prova de Síssi, e as outras funcionárias haviam se esquecido de seu vestido.

Síssi, desceu as escadas correndo, passou por Paulo e continuou sem rumo. Sentou-se num banco na praça, ficou pensando por um longo tempo. Olhou para cima num gesto de indignação. Foi então que uma brisa suave começou a soprar pequenas folhas alaranjadas sobre ela. Sentiu-se abraçada e confortada novamente. Lembrou-se que “Alguém lá em cima” gostava muito dela. Levantou-se e foi correr atrás do prejuízo.

[…]

Dia doze de Maio: Síssi casou-se na igreja que uma tia indicou, não era o salão escolhido. Entrou com um vestido que lhe arrumaram às pressas, não era o tão sonhado modelo. Uma madrinha e nova dama haviam substituído as desistentes.

Maria Cecília entrou deslumbrante, com um brilho no olhar inconfundível: era a Síssi!

Síssi, que se casou com o mesmo noivo Paulo (Rss!), no seu mês de Maio, na sua estação de Outono!


© Por Lilly Araújo-15/02/2011-Direitos Autorais Reservados.
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