Category: J. G. de Araújo Jorge


Respondo à tua carta: (a nossa última carta)
– bem sei que deste amor tu já te sentes farta
e queres acabar. Vou fazer-te o desejo.
Tu tens toda a razão, e afinal, hoje, vejo
o erro que eu e tu na vida cometemos…
Também acho melhor que a história terminemos
já que enfim encontraste um novo amor, sincero,
diferente do meu. Faço votos e espero
que sejas bem feliz… Farei por esquecer
este lindo romance, e por não mais rever
as noites que nos dois, sob a sombra dos ramos
daquela árvore velha, a imaginar passamos
um futuro irreal… Tentarei apagar
da lembrança – o jardim, a casa, o nosso lar,
aquele doce lar do teu sonho de criança
e que era para mim a mais linda esperança…

Tudo isso – afirmas tu – foi apenas um sonho,
uma época feliz, um tempo mais risonho
que afinal já passou… E escreves, terminando,
– que procure da mente meu sonho ir apagando
porque não voltarás jamais, e sendo assim
é melhor esquecer… é melhor para mim…
Que queres que eu responda? – Hei de tudo fazer
para arrancar do âmago do ser
este amor que nasceu sem que eu sequer notasse
fazendo-me sofrer… Se este amor te contasse,
as dores que em meu peito o coração abriga
num sofrimento atroz; verias, minha amiga
que é fácil esquecer, quando apenas julgamos
ter amado; porém, quando em verdade amamos,
só depois de amargar infindáveis tormentos,
conseguimos enfim, alguns poucos momentos
de olvido e solidão. Meu caso é diferente
do teu, pois que te amei, e amei sinceramente
acreditando em ti. Pensei que era feliz
muita vez à razão acreditar não quis,
e hoje sofro pagando a minha ingenuidade.
Tu, não. Pensaste amar; julgaste ser verdade
o que agora não é mais que um sonho desfeito…
Ainda há, como bem vês, acesa no meu peito
a brasa deste amor, e em minha alma ainda existe
um vago relembrar, que me faz triste
sentindo o que passou. Contigo, nem sequer
há de haver, a menor lembrança – és bem mulher
no teu esquecimento… Esqueceste depressa…
– Confessa!… Tu jamais tiveste amor, confessa!
Só assim compreenderei a tua decisão
e o novo amor que achaste… Eu sofro, e com razão,
quando penso que um outro há de beijar-te a boca,
esta flor rubra e fresca onde a minha lama louca,
se fundiu à tua alma e fremiu de desejo.

A tudo esquecerei, talvez – mas este beijo
não tentes me pedir -, de há muito está gravado
como o ponto final da história do passado…
…………………………………………………………………….

E é só. Nada mais tenho a te dizer. Na vida,
não te quero encontrar jamais arrependida
porque seria em vão… Meu amor é dos tais
que morto como foi, não voltará jamais…
………………………………………………………………….

Adeus… (Podes rasgar todos os versos meus…)
perdoa-me se guardo o nosso beijo…

Adeus!…


(Poema de J.G. de  Araujo Jorge
in  ” Meu Céu Interior “- 1934)

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Vício

  

 

 

Tu nunca bates no meu pensamento à hora de entrar.
Chegas de repente, invades tudo, e é impossível te expulsar
por que então já sou eu que te procuro.



Não escolhes momento. É na hora séria ou na hora triste,
na hora romântica, ou na hora de tédio
por mais que me encontres fechado em mim mesmo
entras pelo pensamento, – clara fresta, vulnerável
às lembranças do teu desejo.

 

E quando chegas assim, estremeço até regiões ignoradas
me levanto, e saio, sonâmbulo, a te buscar
a caminhar a esmo …

 Chegas – como uma crise a um asmático, – e então
[preciso de ti
como preciso de ar,
e tenho a impressão de que se não te alcanço, se não
[te encontro,
vou morrer, miserável, como um transeunte nas ruas,
antes que o socorro chegue para salvá-lo …
alcançar-te é um suplício …

Teu amor para mim – é humilhante a confissão
-D
epois que consegues atingir meu pensamento
tua posse é uma obsessão,
não é amor, é vicio …

(Poema de JG de Araujo Jorge
do livro – Harpa Submersa – 1952)

 


 

Há dias que posso passar sem sol, sem luz,
sem pão,
sem tudo enfim…

( Tenho até a impressão de que não preciso de nada…
… nem mesmo de mim…)

Mas há dias, amor… (e parece mentira)
– nem eu sei explicar o porquê
de tão grande aflição –

em que não posso passar sem Você
um segundo que seja!
– de repente preciso encontrá-la, é preciso que a veja –

– Você é o ar com que respira
meu coração!
 (Poema de JG de Araujo Jorge do livro
– Antologia Poética Vol. II – 1a ed. 1978)

 

 

Tão simples este amor nasceu… Nós nem notamos
 que era amor e afeição que aos poucos nos prendia…
 O amor, – é aquela flor que engrinalda dois ramos
 aos esponsais de luz do sol de cada dia!
 
 Dois ramos, – eu e tu, – e as horas desfolhamos
 numa doce, irrequieta e impensada alegria,
 – e assim vamos vivendo, e a viver, acenamos
 sonhos verdes aos céus azuis da fantasia!
 
 Tão simples este amor nasceu… Tal como nasce
 um beijo em tua boca, um riso em tua face,
 uma estrela no céu… ou uma flor de um botão.. .
 
 Nem era necessário mesmo eu te falar,
 se já o tens transformado em luz no teu olhar,
 e eu, já o sinto a cantar, dentro do coração!

(Soneto  de JG de Araujo Jorge – coletânea –
“Meus Sonetos de Amor ” 1a edição1961 )